Luiz de Aquino Imprimir E-mail
Escrito por Administrator   

Alguém, se Não Vieres


Eu preciso que me olhes nos olhos

e decifres a angústia

que te atrai e me tortura.

Eu preciso te dizer certas coisas

que se calaram em mim quando te vi

na manhã imprevista

e indecisa,

mas dizer estas coisas custa ânsias

incontroláveis.

 

Eu preciso de vez que te chegues a mim

e não me digas bom-dia

e nem me cobres os dias e noites

da nossa ausência.

 

Eu preciso de alguém

que converse comigo

no amanhecer.

 

Acalanto

Tudo o que eu quero na vida
é estar para sempre
envolvido em teu som, cercado no espaço
de tua voz.

O que eu quero da vida
é a sempre esperada
expectativa
de estarmos a sós,
porque tua voz e teu cheiro
na intimidade
me dizem melhor de tudo o que somos.

Espero da vida
estar muito perto do teu calor,
no afeto dos beijos
e no acalanto de teus dedos em meus cabelos,
à luz miúda do quebra-luz
enquanto nos inteiramos
de sermos unos.

( Luiz de Aquino- Canto de amar, 1986)

 

SOU POETA

 

Sou poeta porque
tenho sede dos sentimentos
e encontro no dom das palavras
o mistério da busca;
porque sou carne e espírito
e me foi dado sentir, e saber
dos sabores e das dores,
das ânsias e dos bens.

Sou poeta como agente de Deus, porque
me compete sentir Suas forças
e cometer sobre a Terra o empenho da Paz,
dos Encontros,
do Silêncio tácito ante a Felicidade.

Sou poeta porque sei da Natureza
e da natureza dos homens, porque sei das fêmeas
dos homens e as venero
pelo que estimulam, provocam
e recebem.

Sou poeta por estar no ar
sob as árvores, na luxúria das alcovas,
na consciência dos peixes e na esteira
das aves noturnas.

Sou poeta por ser simples
e buscar essências nas mãos infantes,
na fome dos loucos, na ânsia dos mendigos
e na solidão dos religiosos.

Não me é dada outra opção:
sou poeta
para não ser político.

 

Do Bem e das Dores

Sei do bem e das dores
que te faço.
Sei do meu peito fervente,
minhas mãos em súplica.
Um sorriso, um olhar?
Não me cobres a distância,
que não te cobro a presença.
Pensa. E sente.
Não haverá meus carinhos sem lembranças.

Não consigo não te amar.

 

 

Estranhas verdades


Há sons, há fumaça. A luz
me perturba.
Sou mais as estrelas,
insisto na madrugada.
Tanta gente, Deus!
Ares e lugares,
nuanças de medo,
tristeza e verdades.

Estranhas verdades.

 

(Razões da semente, 1996)