Textos/poemas de Silas C. Leite Imprimir E-mail
Escrito por Administrator   
   

Fortaleza (Salmo) – Para a Amiguermã Eunice Nininha

  

-(1)-Porque Deus vai nos dando Coordenadas/Dentro do que vemos, passamos ou intuimos/Ou do que não vemos. E sentimos.../Porque Deus quer o melhor para nós, para a nossa evolução/E às vezes precisamos ouvir o que não queremos mas precisamos ouvir.../E Deus vai nos dando pistas...sinais/(A força que nos alerta)/E só nos reconhecemos e nos recolhemos em nós/Quando estamos em Deus/E estar com Deus é pensar Nele em sua santidade e edificação/

(2)-Porque Deus nos deu de identidade uma bússola no interior de nós/Uma espécie de sextante no íntimo/E assim O divisamos como uma ilha de misericórdia e refúgio nessa difícil e incompreensível Viagem de existir...e sobreviver/A existência é Deus e os sinais Dele/São tão claros que às vezes nos cegam/Ou a nossa procura e o nosso olhar imediatista é limitado em potencial, pequeno/Quando os códigos de Deus são altaneiros, quase incompreensiveis/E a decodificação passa pela transparência de nossa alma edificada em portos de encalhes.../

(3)-Às vezes Deus cansa de nos dar sinais/E quando estamos perto da lanterna dos afogados/Deus então nos alerta e nos supreende/Pela dor, pelo acidente, pelo drama, pela perda dura e inexplicável para o nosso ver sentir comum/E então quebrados somos despertos e finalmente olhamos para o alto/Pedindo um socorro doloroso, amargo/E finalmente procuramos Deus como sustentáculo lá no mais recôndito de nós/E então caímos em nós e na nossa finitude e miserabilidade/Pois nem tudo o que nos foi dado de luz e exemplo pela graça de Deus nos pertence/Tudo é lição, referencial, vivência de aprendizado existencial/E nesse choque nos reencontramos com Deus num vale de lágrimas para finalmente limparmos os olhares de ver e olhares de sentir/E contemplamos o Criador em sua plenitude celeste/Inclusive de recolhedor do que nos deu como sinal de exemplo e de grandeza/

(4)-Seguindo as Coordenadas de Deus/Somos instrumentos Dele; a grande esperança do perdão Dele/E então O tendo conosco e dentro de nós/Nosso espírito sofrido e atribulado se refrigera/Somos de alguma forma recompostos/E inexplicavelmente ficamos fortes na dor, quando aprendemos/E ficamos santificados novamente pela eterna esperança da promessa ciclal do bendito Reencontro/E então enfrentamos tempestades e furacões/Porque renovamos as forças em Deus/E Ele nos dá uma nova estatura de fortaleza/De infinitas sustentações!


Pequena Resenha Crítica

  

Romance “UM”, de Geraldo Lima – O Discurso Amoroso da Dialética Consciencial

  

“Estou farto de muita coisa (...).

Eu quero a destruição de tudo o que é frágil” - Roberto Piva

O que pode o ser humano, senão, entre seres humanos, AMAR?. Parafraseando o poeta, é isso o que se dá, naquilo que Cazuza chama de sua metralhadora cheia de lágrimas, em Um, o romance de Geraldo Lima, LGE Editora, uma dialética do discurso amoroso em que permeia a consciência, o paradoxo, o ser humano (no caso, sensível), entre seres humanos, AMANDO.

E com tudo isso, claro, a narrativa que vai e volta, choca e instiga, se esconde, aparenta, cita, permeia, desce e sobe, sempre sob o pântano da condição humana nas relações humanas. Será o impossível? Geraldo Lima debuta e enlaça narrativas como quadros cênicos dessa relação amarga-doce, bonita-feia, alegre-triste, sensual-bizarra, mas, antes de tudo, como as cartas de amores são ridículos – olha o Fernando Pessoa! – romances de amor nesses tempos pós-modernos também. Pior, se entre o sagrado e o profano, a carne e o sangue, o santo e o convexo, vivenciam diálogos impertinentes, bem costurados com arrojo de criar sem cair na pieguice romântica do quase ou tanto... pode se dizer que o amor acaba mas a saga continua. Ex-amores são para sempre?

Pois é: o amor tem sim, loucura que a própria lucidez desconhece.

Como se descascasse uma cebola de relação que ameaça, explicita, sai de cena, pensa-se, o autor vai retaliando a relação, fatiando sofrências, acontecências, dando tempo ao verbo e o verbo se faz carne, como se faz tensão, solilóquio, espírito e carranca. Olha a consciência como leitmotiv. Ana é o fio de Ariadne ou Ariadne é uma consciência sagrada pesando, fio condutor, para um interlocutor (interlocutora – a consciência?) onde sempre depositamos o pão e o vinho, do que se vem da carne nas relações proibidas/permitidas, só sonhadas, quem o sabe? Crime e castigo? Ah o crime de amor que faculta o existir... A consciência é a serpente que envenena intenções (ou possíveis intenções em treva branca), ou clarificando pensares, ilações/alusões, faz um inventário de partilhas íntimas, abre véus, aponta o que existe e até o que não existe?

Geraldo Lima demonstra isso aqui e ali, teatrizando ora o possível, o entendido como havido, o medo de algo-alguma coisa, resvalando ora na poesia, ora na prosa, ora meio que lispectoriano sem perder a mão (e a ternura) jamais. Gostoso lê-lo.

A Ana que foi (foi?) e já não é. A Ariadne que poderia ter sido e não foi. O entremeio, o intertexto, as citações, o seminário (que aqui vem de sêmen?...); o possível pecado de, o padre e os estudos, o corpo, a devassidão; nunca completam de uma perdição cobra-cega no paraíso do contar. Que consciência é o divã? Divã de idéias; divagar delas, ah o romance como fio de meada, fio de Ariadne, olhar enviesado, tirar de véus, entrecortar, contando, entrecontar, cortando, pinceladas mágicas de ternura, sensibilidade, como se tudo entre quatro paredes, o voyouver, e vai por aí o bolero-(tango-)mixórdia da contação. O castiço a rapariga, o mortiço dos ambientes propositalmente turvos, e o sexismo, o amor e o pudor. UM, o Romance de Geraldo Lima poderia também se chamar Inferno, fosse invocada a consciência como narradora. Tudo bem, é o espírito que ama o espírito, antes do corpo amar o corpo... isso, nas fáceis vidas difíceis, mas, entre uma sedução e um seminarista, tudo ralhado, há bulhas e cismas. Periga ver. Sentir, chocar com o olhar do que conta o vai-da-valsa, com um medo-coisa, uma solidão-embuste, uma aparência que, sim, engana. De propósito?

Depois que conhecemos o amor, em que lugar (de nós) deixamos as asas? Extremos e lumes. Sangria desatada a... de novo, consciência... repigando sentimentos e ressentimentos. Tudo a ler.

Que cenário é a mente, a casa, a história, lugares nenhuns, todos os lugares? Paulo tece os momentos que passou com Ana, a quase fêmea-fatale (não são todas?), a mulher-aranha com quem morou por algum tempo. Fala da amiga Ariadne, tece acontecimentos e pessoas como referências de vida de passagem. E há o padre Artur, que lhe foi uma espécie de mentor. Com o autor caímos na redoma de vidas, além, claro, de uma sua experiência transformadora que nos leva a reflexões ora incabidas, ora insabidas, ora sagraciais. Sim, meus irmãos, cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é, e o que não é.

Cada um sabe de que luz faz cruz, de que devaneio faz sentimento, de que santeria interior faz nau insensata, de que atitudes impróprias congela momentos, visões, prismas. Escrever é colocar dúvida em nós mesmos, a partir de olhares novos sobre frinchas revisitadas.

UM é isso: um romance sempre no começo de uma relação que é posterior e anterior ao seu tempo estagnado, mas que viça pela palavra, se alonga, debulha, questiona, avalia e até trinca intenções. Há entrelinhas no ler...

Que milagre é amar e escapar ileso? Escrever é lembrar, lembrar é escrever/ascender (e acender velas na solidão de uma alma em conflito). Depois que um corpo conhece outro corpo, fugir é mergulhar nele, mesmo que seja num palavrear confeitos, contrastes e ramificações do verbo sentir. E pensar é sentir com a alma. A carne é fraca, meus irmãos, o Romance UM foge do cepo da consciência, para cair no labirinto das confrontações. Um romance e tanto. E atual, moderno, nesses tempos em que uma igreja decrépita mostra as vísceras, em que a nódoa da historia nela depositada é remorso, e em que os que passam pelo genuflexório têm que rezar defeitos, lamúrias e resignações de fugas ainda não depuradas. Há um Deus? Periga ver.

A correnteza da narrativa é o contra-fluxo do medo de amar até a página tal, o lado b do que se passou. Há coisas no ar. UM é apenas o começo do zero ao infinito. Tudo pode ser, como também não. Tudo pode ter acontecido, como pode ser um delírio bem orquestrado entre o que houve e o que se coube na relação até o limite do provável.

A mão que oferece a maçã, oferece o delírio do corpo, da carne, do afeto trocado. Amou tem que rezar? A cartilha do amor é o corpo do êxtase levado ao destempero. Amar e sofrer.  A corrupção do corpo. A delação da mente. Turvamos o historial para sentirmos a transparência de nós mesmos? Mia Couto dizia que a melhor maneira de mentir é ficar calado. E narrar o questionável? Si, sem o prazer não podemos parecer humanos. E o humano em nós desmonta o falso-sagrado em nós. Escrevemos para medir o destino, ou o amor é um erro? 

Geraldo Lima é professor de literatura, e conhece do oficio de romancear. Tem outras obras, alguns prêmios, retrata as relações humanas levadas ao extremo, entre o zelo, entre a mancha; do achado entre o perdido, das neuras e dos perigos letrais das relações amorosas, feito um discurso da posse de, da libertação de, dos atropelos de.

Amar se aprende amando, diria o poeta. Há muita poesia no Romance UM de Geraldo Lima. Ler a obra é desnudá-lo. Ficamos cegos de tanto sentir, ou ler é tirar as tintas e panos do que ele conta, para sentirmos na pele que o livro vai além da experiência mística que inventa de contar?

Que hamster é o ser humano para o suplicio do conviver entre desiguais? Primatas querendo ser divinizados experimentam os horrores das contundências.

O Tibete talvez seja descobrir o humano em nós, depois que

passamos tanto tempo no piloto automático da vida infame. E aí entra o amor na sua mais pura devoção, mesmo que paralelo ao medo do fotógrafo que retrata em nós a entrega despudorada, o inominável da submissão à carne, a tarja preta e o código de barras feito sermos todos nós ainda e assim, por isso mesmo o Número UM, introspectivo ou não, daquilo que sabemos de nós, entre o defensor e o algoz, a consciência e a circunstancia de.

O escritor é o que, com uma lanterna, procura o número que somos, que parecemos, que multiplicamos em silêncios, palavras, moinhos de ventos, filtrações e sagradas escrituras. Sagradas?


 As Sandálias do Peregrino

 -Calça as tuas sandálias de humildade, eleva tua mente às nuvens descalças, procura as pegadas do coração, e prepara técnicas de vôo para o teu espírito de doçura e de contemplação de tantas asaluzes muito além do sol... -Calça as tuas sandálias de lágrimas, abre teu leque de pétalas, sê pescadora de pérolas templárias, e reconhece no teu irmão poeta um peregrino visitador de almas irmãs em bem-aventuranças de horteleiros dos reinos dos céus... -Calça  as tuas sandálias de amor, e verás que, de alguma maneira, teus calcanhares ganharão asas, e terás a sensação que a tua mochila de perdas e danos apresentam enormes e santificadas asas que criam lilases do eio do Pai celeste... -Calça as tuas sandálias de esperança, e vê que teu sonho é o reflexo de tudo o que anseias por um mundo melhor, uma paz solidária, um sentido universal de justezas no amor em Cristo... -Calça as tuas sandálias de caridade, e verás que és o caminho, há um caminho ao redor de ti, um caminho que cresce a partir de ti, pois o fizeste na caminhada e ainda o farás uma escada para o céu de todas as honras... -Calça as sandálias do pescador, do vendedor de pirulito de açúcar cristal, do fazedor de rapadura de amoras silvestres, do encantador de borboletas e do acendedor de estrelas... -Calça as cascas de laranjas-pêra de tuas perdas, dos pedaços de frutas de tuas trilhas e iluminuras, e vê que tudo soma, tudo é edificação, tudo é sumus e inventário de partilhas somatizadas... -Calça as alegranças de tuas conquistas, no teu tear de azulejos de mãe, amiga, companheira, filha, pintora de resíduos cósmicos que retiras das porcelanas da alma para o pastel das revelações sagraciais... -Calça a areia do deserto que desfizeste, calça o sal em que plantaste a gaivota de tua alma, calça a tez chão de uma flor que desabrocha em tua vida como um lirial eterno... -Calça as sandálias de gotas de orvalho e sereno; calça os panos residuais de esporos e prelúdios, calça os engenhos íntimos de tons cor de fogo da aurora, calça os degraus dos estradeiros, os aclives para embarques dos anjos, as pérolas que de tua dor fizeste diadema de luz, aura e halo... -Calça as meias de origem, as pantufas dos ancestrais, as vestes que legarás aos teus descendentes, a manta de tua santificação nas obras, a túnica do Rei dos reis, pois que és escolhida entre tantos os chamados que não se apresentam para a caminhação... -Calça teus pés de poemas, pois tua alma respira por eles, erguendo livros-árvores, filhos-árvores, amigos-árvores; poderás ter frondosos sonhos de paz no remanso dos anjonautas que te abençoam e reconhecem em ti uma especial  filha do Criador... -Calça teus dias de trigais dourados, reveste teu espírito de campos de lavanda, alimenta teu coração de sucos de espiritualidades, e saberás quando for a colheita, pois que agora o teu tempo é de louvor e de maravilhas no amor do Pai.-0-

A Identidade da Dor (Poema Para o Centenário da Imigração Japonesa) 

Hiroshima ainda está lá

Como um espelho

Uma bomba não mata uma cidade

Uma identidade-povoUma idéia-espaço 

Nagazaki ainda está lá

E reflete Hiroshima

Não pela radiação

masPelo que ambas foram e serão 

Restos de Hiroshima

Ainda são Hiroshima

Como escombros de Nagazaki

Têm uma identidade silencial 

Ninguém mata Hiroshima ou Nagazaki

Ninguém mata a vida

Ou uma identidade histórica e espacial de vida 

A bomba não mata a dor

Do que restou da guerra

E essa dor que doerá infinitalmente

Será Hiroshima Será Nagazaki

Porque a paz confere a dor

Perpetrada na lágrima~

Como um desenho arquitetural na saudade

Que a luz lê em sangue

Nas flores de cerejeiras

Como haicais, no átomo.

Poeta Prof. Silas Corrêa LeiteE-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. www.itarare.com.br/silas.htm Autor de Campo de Trigo com Corvos(Contos) e Porta-Lapsos (Poemas).