SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andersen nasceu no Porto, em 1919. A sua infância e adolescência decorrem entre o Porto e Lisboa, onde cursou Filologia Clássica.

Suas atividades dividiam-se entre o ofício de escritora e tradutora, além do attivismo cívico contra a ditadura de Salazar, que então dominava o país. Sócia fundadora da "Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos", a poesia ergue-se também como uma voz da liberdade, especialmente em O Livro Sexto.
A sua intervenção cívica é uma constante, mesmo após a Revolução de Abril de 1974,
tendo sido Deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista.
Como tradutora, Sophia é ainda tradutora para português de obras de Claudel, Dante, Shakespeare e Eurípedes.

 

 

AUSÊNCIA

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Se tanto me dói que as coisas passem

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

Quem és tu

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.


Mar sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Navio Naufragado
Vinha de um mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.


É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes.

 

Um dia Um dia, gastos, voltaremos

A viver livres como os animais

E mesmo tão cansados floriremos

Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

 

O vento levará os mil cansaços

Dos gestos agitados irreais

E há-de voltar aos nossos membros lassos

A leve rapidez dos animais.

 

Só então poderemos caminhar

Através do mistério que se embala

No verde dos pinhais na voz do mar

E em nós germinará a sua fala.

 

Cronologia da obra de Sophia de Mello Breyner:

Poesia:

Poesia - 1944

Dia do Mar- 1947

Coral - 1950

Tempo Dividido - 1954

Mar Novo - 1958

O Cristo Cigano - 1961

Livro Sexto - 1962

Geografia - 1967

Antologia - 1968

Grades - 1970

11 Poemas - 1971

Dual - 1972

O Nome das Coisas - 1977

Poemas Escolhidos - 1981

Navegações - 1983

Antologia - 1985

Ilhas - 1989

Obra Poética - 1990/1991

Musa - 1994

Signo - 1994

O Búzio de Cós e Outros Poemas - 1998

Em prosa:

Os Contos Exemplares - 1962

Histórias da Terra e do Mar -1984

Literatura Infantil:

O Rapaz de Bronze” -1956

A Menina do Mar - 1958

A Fada Oriana - 1958

Noite de Natal - 1960

O Cavaleiro da Dinamarca -1964

A Floresta” - 1968

O Tesouro - 1978)

A Árvore - 1985